27 novembro 2007

Acordo Ortográfico, o que muda e as traduções

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O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, garantiu que vai ratificar o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa até ao fim deste ano de 2007, e com vontades semelhantes estarão Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.
Mas afinal o que é o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, quais são as suas consequências para os países que falam o Português e como é que as pessoas o vêem??

O Português é a terceira língua mais falada no mundo ocidental e a sexta em todo o mundo, sendo o idioma oficial do Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, e Timor-Leste, e ainda é falada na antiga Índia Portuguesa, além de ter estatuto oficial na União Europeia, Mercosul e na União Africana. Há ainda cerca de vinte línguas crioulas de base portuguesa além de ser língua minoritária em Andorra, Luxemburgo e em outros países europeus, africanos e americanos. É uma língua românica que tem sofrido uma evolução histórica, sendo influenciada por outros idiomas e dialectos. Hoje, a língua portuguesa compreende vários dialectos e subdialectos, falares e subfalares, muitas vezes bastante distintos, além de dois padrões internacionalmente reconhecidos que são o português brasileiro e português europeu. Hoje em dia, o português é a única língua falada por mais de cem milhões de pessoas com duas ortografias oficiais e é essa a situação a que o Acordo Ortográfico de 1990 pretende acabar. Devo recordar que já em 1945 tinha sido tentado uma certa unificação entre Portugal e Brasil, e que Portugal chega a implementar ao contrário do Brasil.
Uma coisa muito importante a esclarecer é que o Acordo é para a unificação da ortografia da Língua Portuguesa e não da Língua Portuguesa! Uma explicação mais aprofundada é dada por José Luiz Fiorin, professor de Linguística da USP:

"A língua é uma coisa viva, mutante, que varia de acordo com a província, com os enunciados e com as necessidades dos falantes daquela língua. Não dá para uniformizar a pronúncia, o estilo, a poesia da língua. O que dá para unificar é a grafia, a representação gráfica e é exatamente isso que o acordo propõe.
...
A ortografia não reflete exatamente o que é uma língua. A ortografia é uma convenção, regida por lei, que retrata graficamente as palavras de uma língua. Agora a língua mesmo é bem mais que isso. A gente fala, a gente se expressa, a gente ama, a gente se desespera e a gente mostra o que é em Português. A língua é isso, é essa tradução da identidade do povo. A ortografia é só a representação gráfica disso tudo. E ela não é capaz de refletir com exatidão. A gente fala “di dia”, e a grafia correta é “de dia”. A gente fala “lobu”, e a grafia é “lobo”. Então nem sempre a grafia é a representação mais fiel da língua, fora os sotaques, as entonações, as variações regionais, tudo isso. Uma reforma radical da língua apontaria na direção dessas mudanças. Adaptar a língua escrita à língua falada."


Em termos práticos, a unificação da ortografia implica que 1.6% do vocabulário de Portugal seja modificado enquanto que o vocabulário no Brasil sofre apenas 0.45% de alterações, mas apesar destas mudanças ortográficas, serão conservadas as pronúncias típicas de cada país. O alfabeto passa a ter 26 letras ganhando o "K", o "Y" e o "W"; cai o "h" como em "húmido" para ficar úmido, desaparecem o "c" e o "p" nas palavras onde ele não é pronunciado como "acção", "acto", "baptismo" ou "óptimo". Parece que o Presidente do Conselho Marcelo Caetano já se preparava para eliminar estas consoantes mudas quando se deu a revolução em 1974!
No vocabulário brasileiro desaparece o acento circunflexo em palavras como "abençôo", "vôo", "crêr", "lêr" e outras. Desaparece também o trema em palavras como "lingüíça", "freqüencia" ou "qüinqüénio", coisa que em Portugal há muito que não se usava, além do acento agudo nos ditongos abertos como "assembléia", "idéia" ou "jibóia".

O que deve ficar claro com este Acordo Ortográfico é que ele muda a grafia de certas palavras, a maneira como se escrevem mas não altera a pronúncia de nenhuma palavra! Ele não cria nem elimina palavras, não tem a ver com as variações de uso ou significado delas, não elimina em nenhuma palavra qualquer letra que se leia numa pronúncia culta da língua, não estabelece regras de sintaxe, não interfere com a coexistência ou com as regras de normas linguísticas regionais, tem a ver somente com a maneira de escrever as palavras! Com o Acordo Ortográfico, a grafia das palavras passa a ser regulamentada nos países de língua portuguesa por uma única norma.

Sobre este acordo pedi a dois tradutores de software livre, a sua opinião sobre as possíveis vantagens ou desvantagens que poderão advir com a implementação do Acordo Ortográfico. Os entrevistados são o André Noel (AN) do Projecto de tradução Ubuntu para o português brasileiro (pt_BR) e o António Dias (AD) das traduções do projecto Mozilla para português europeu (pt_PT). Ao contrário do António Dias que confessou estar um pouco reticente quanto ao Acordo, o André Noel está bem mais optimista e consciente que o Acordo será apenas para unificar a escrita entre os países de língua portuguesa. Por curiosidade, o António Dias escreveu uma proposta para uma nova ortografia que se encontra disponível para consulta no seu site.

Tux Vermelho: -O que sabes sobre o Acordo Ortográfico?

AN: -Não estou profundamente por dentro do assunto, mas sei que a idéia é unificar a escrita entre os países de língua portuguesa.
AD: -Muito pouco. Sei que já devia ter entrado em vigor em todos os países da CPLP, descontando os necessários períodos de transição, mas que há alguns entraves burocráticos na sua adopção plena -- e talvez Portugal esteja a ser o país que mais resistência tem apresentado a isso.
Sei também quais as alterações mais notáveis para a ortografia do português europeu, que são quase todas pacíficas para mim, embora tenha algumas dúvidas quanto à razão de ser de outras.

Tux Vermelho: -Achas que o acordo seria perigoso no aspecto de acabar com os sotaques e variações que existem em todos os países que falam português?

AN: -De forma alguma. A escrita seria unificada, porém cada país continua com suas palavras específicas e com sua forma de falar. Acredito que a mudança gere dúvidas e desafios, mas nada muito pesado.
AD: -Não. O acordo, ao que sei, não tem qualquer influência na linguagem falada, apenas na ortografia.

Tux Vermelho: -Que benefícios poderia trazer, especialmente no teu trabalho de traduções?

AN: -Na minha área (informática) os benefícios seriam muito grandes. A maioria dos programas são feitos em inglês e depois traduzidos para inúmeras línguas. Com o acordo, ainda teríamos times de tradução diferentes para os diferentes países de língua portuguesa, porém muito trabalho poderia ser aproveitado de um país para o outro, necessitando apenas de revisão em termos específicos do país e não na grafia.
Na tradução do Ubuntu, por exemplo, a tradução para português brasileiro é a sexta mais completa. A última versão do GNOME foi lançada com a interface 100% traduzida para português brasileiro. Seria muito bom se isso pudesse ser compartilhado de forma fácil com outros países.
AD: -O acordo ortográfico terá uma influência muito limitada nas traduções do projecto Mozilla ou, já agora, qualquer outra tradução. Basicamente, bastará rever a tradução para emendar as palavras alteradas pelo acordo. Com um pouco de imaginação, isso até poderá ser feito automaticamente.
Uma das grandes vantagens do acordo será poder ter um único corrector ortográfico para os dois sabores da língua portuguesa.

Tux Vermelho: -Que dirias àqueles que estão reticentes com o acordo?

AN: -Toda mudança gera grande espectativa. Mas quando tratamos de países que possuem uma riqueza de material escrito (literatura, tecnologia, etc.), seria muito vantajoso esse acordo.
AD: -Não sei, principalmente porque mesmo eu tenho algumas dúvidas quanto à necessidade da sua implementação. Penso que o grande argumento a favor da adopção do acordo será que as alterações são mínimas e, a maior parte delas, com alguma lógica.
As minhas reticências quanto à necessidade deste acordo prendem-se maioritariamente com o impacto financeiro que este irá ter, não só nas editoras e serviços do estado (que são os implicados mais óbvios), mas em toda a sociedade, pois isso implicará a alteração de letreiros, avisos, manuais técnicos, etc., que terá o seu custo. Esse custo seria negligenciável se as vantagens do acordo fossem evidentes, como uma maior facilidade na aprendizagem da escrita. No entanto, as alterações são tão poucas e inconsistentes que essa vantagem não existe.

Tux Vermelho: -Algo mais que queiras opinar?

AN: -Participo e acompanho o Planeta GNU/Linux Brasil (planeta.gnulinuxbrasil.org), onde pude ter um contato com irmãos lusitanos. Ali vejo as vantagens de ter um canal aberto entre países de língua portuguesa. Acredito que cada passo em prol de uma aproximação de tais países seja uma grande conquista.
AD: -Gostaria de dizer a todas as editoras, brasileiras ou portuguesas, que pensam que o com o acordo ortográfico o mercado se alargará para incluir todos os falantes da nossa língua, que pensem de novo. O português do Brasil é diferente do português europeu em mais do que a ortografia. Aliás, a ortografia é apenas um pormenor sem importância, já que a verdadeira diferença está no vocabulário e na construção das frases, que é já algo diferente no uso comum mas bastante diferente no português técnico. Muitos portugueses preferem ler manuais técnicos em inglês do que a sua tradução em português do Brasil precisamente porque preferem ler "file" e pensar "ficheiro" ou ler "screen" e pensar "ecrã" do que ler "arquivo" ou "tela" e ter que parar para pensar o que é isso. E isto são os portugueses, que até estão algo acostumados a ouvir o português do Brasil, por culpa das séries brasileiras ou da música. Imagino que para o brasileiro comum, que tem muito menos contacto com a nossa versão da língua, os termos "ficheiro" e "ecrã" soem ainda mais estranhos.
Suponho que este problema não se põe na literatura ou na arte -- nunca tive qualquer problema em entender as canções ou as telenovelas do Brasil ou os livros do Jorge Amado na sua versão original, e acho que todas as pessoas da minha geração leram banda desenhada em brasileiro ("pernilongo" para designar "mosquito" é um daqueles termos que ficará para sempre gravado na minha imaginação). Mas sei que cada vez que leio um livro técnico em português do Brasil fico a pensar que o preferia ter lido em inglês.
Quanto ao acordo propriamente dito, acho que só valeria a pena se fosse realmente radical e transformasse a nossa linguagem escrita em algo bastante mais perto da linguagem falada, eliminando as suas inconsistências e melhorando a facilidade com que se aprende a escrever.
Por coincidência, há uns anos escrevi uma "proposta para uma nova ortografia da língua portuguesa" [1], que também tem os seus erros e inconsistências, mas se o presente acordo fosse algo nesta linha de objectivos, talvez eu o apoiasse com mais empenho do que o faço hoje. Por outro lado, com estes objectivos talvez a diferença ortográfica entre o português europeu e o do Brasil se acentuasse, em vez de diminuir...

[1] é apenas um exercício de uma mente desocupada -- não é para levar a sério!


É inevitável haver mudanças na ortografia, a língua evolui e por arrasto, a ortografia tende a simplificar-se, a evoluir. Claro que sempre que há mudanças, há desconforto, principalmente entre as pessoas que sempre conheceram a mesma maneira de escrever. Convém lembrar que ainda não foi há muito tempo que se escrevia farmácia com "ph" e se tiverem oportunidade de ler um livro que tenha sido imprimido pelo princípio do século passado, irão encontrar uma ortografia bem diferente da actual. Talvez não seja má ideia começarmos a habituarmos-nos a escrever segundo as novas regras...

Contribui com a tua opinião!


Fontes: Wikipedia, Lusofonia, Acordo Ortográfico, Leonardo Fontenelle, Portugal Diário

30 comentários:

Achei o António Dias muito negativista. Eu acho que é apenas uma questão de tempo de assimilarmos a novas mudanças.
Sempre vai haver revisão em materiais impressoes, na oportunidade em que eles acontecerem poderão ser revistos gramaticalmente segundo as novas normas.

Felizmente vou dar adeus ao trema, que alias, já não é usado por aqui senão no dicionário.

Nunca entendi direito o porque dessas contrações como em acções, óptimo, etc... e a relutância em acrescentar KWY ao dicionário. As ditas letras estão no teclado, estão no telefone,... demoraram muito.

Para ser sincero também tenho que parar para entender ecrã(=tela) e ficheiro(=arquivo). Pontos para o ficheiro que é fácil de entender, mas ecrã eu demorei muito para entender da primeira vez.

Eu acho interessante o portugues-portugal porque vocês repudiam estrangeirismo, nós brasileiros incorporamos qualquer moda noutra lingua especialmente ingles e frances. Seria muito melhor realmente se usassemos rato ao inves de mouse, ou sitio ao inves de site.

Um abraço do continente novo.

"Acto" vai passar a ser "Ato"?? não sei o que vocês acham, mas isto soa bastante mal... Vou ter dificuldades em me habituar.

Eu relação ao acordo acho mal alguns casos com é exemplo o "acto -> ato", afinal o "c" está a acentuar o "a". E esta nem é a pior pois há casos em que a palavra "precisa desesperadamente" do "c" visto já ter um acento (agora não me ocorre nenhuma). Eu cá sou muito a favor de "n" versões correctas, tal como é o caso das pronúncias. Há senhores de gravata que insistem que só há uma pronuncia correcta e da mesma forma que não concordo com estes não gosto muito do acordo ortográfico.

A língua mais falada do mundo ocidental será porventura o Inglês, que também tem diferentes grafias conforme o país (gray/grey, analyse/analyze, etc.), com diferenças bem mais pequenas do que as que existe no Português.

Ora se até seria mais fácil unificar a grafia en_US com en_GB, e se eles são muito mais do que nós, porque é que ainda não o fizeram?

Será porque não vale a pena?

E qual é a situação do Espanhol? A grafia é igual em todos os países hispânicos?

Eu concordo em alguns aspectos e discordos noutros...
Concordo com o desaparecimentos de algumas constantes mudas, mas não com todas.

Das coisas que detesto do pt_BR é a construção frásica (por exemplo uma das coisas que mais se ouvem por aí nas ruas: "te amo" em vez de "amo-te") e o aportuguesamento das palavras em inglês (usuário que vem de user, setar que vem de set -> a primeira vez que vi setar fiquei para ai uns 5 minutos a pensar em setas! :P - zerar e outras palavras do estilo) quando existem palavras em português que têm o significado que se pretende ao usar aquelas palavras.

Falante da variante europeia disse...
28 novembro, 2007 17:57
 

Eu acho que no essencial o acordo é positivo, vem facilitar muito o intercâmbio entre as diferentes variantes do português.
Vai certamente causar alguma estranheza inicialmente mas no caso concreto das traduções um acordo deste género, na minha opinião, só pode ser bom.

http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=20570

Quando começo a me acostumar a escrever tranqüilamente, etc. Falam que não vai precisar mais, rs rs

Outra coisa que vou achar estranho é a remoção do "acento agudo nos ditongos abertos".

Escrever ideia soa muito estranho para mim.

Mas no geral, concordo com o acordo :)

[]s

Ao anónimo que falou na construção das frases: "te amo" em vez de "amo-te". O Acordo não tem nada a haver com a construção das frases, só a ortografia. É certo que não te soa bem, mas para os brasileiros é o inverso. É a beleza das variantes da nossa língua...

@darkmagus
A eliminação dos acentos agudos nos ditongos abertos é algo que não nos diz nada. Já há muito que não usamos, mas custa-nos perder muitas consoantes mudas como o "h" de "húmido", coisa que se calhar no Brasil não sentem dificuldade.

Mas a verdade é que tudo tem de evoluir, é assim a vida! E sempre que muda algo, haverá coisas que não gostamos e outras que gostamos, mas permanecer imutável não é solução! Para línguas mortas já nos chega o latim...

Um abraço

RedTuxer

Será que de fato a Reforma/Acordo trará benefícios aos falantes da língua portuguesa, não apenas lusitanos ou brasileiros, mas também africanos, asiáticos e de outras partes do globo? Quais os custos de (re)adaptação de obras, textos, softwares? Será que realmente vale a pena? Porque será que a línuga francesa permanece até hoje com arcaísmos como ph ("physicien" por exemplo)? Poderia citar também o alemão, inglês, etc.
Quantas reformas ocorreram somente no século XX? 4, 5 ? Para quê? Para nada! As reformas muito mais atrapalham do que ajudam.

Não sou contra a integração lusófona, muito pelo contrário, mas não seria mais fácil, por exemplo, um acordo no sentido de um livro de um determinado país de língua portuguesa poder ser publicado, com a variante daquele país, em qualquer dos outros países lusófonos, respeitando assim as diferenças lingüísticas? Por sinal, diferenças essas muito mais sintáticas-gramaticais do que ortográficas.

Ary, cada língua é uma cultura.
Pode não ter sido necessário a outras culturas o que é para nós.

Na minha modesta opinião, as mudanças simplificam.

Com respeito ao material já impresso, uma hora (ou ora?) ou outra todos os artigos sofrem revisões, com mudança na língua ou não.

Estou um pouco chocado com algumas opiniões a respeito do português-brasileiro, alguns criticam sem saber que o português falado aqui é completamente diferente. Nosso português a muito sofreu contaminação (no bom sentido) de outras culturas europeias e também locais, é até incrível que se fale a mesma língua num território tão continental e um misto de várias raças e religiões.

Deve-se considerar o fato de o nosso "galego" ter-se mantido isolado das demais variantes. Tão isolado, ailás, ao ponto do Joaquim Maria fundar a ABL.

PS: O galego é devido ao fato de ter notado em uma viagem que fiz a Espanha que os espanhóis compreenderem (ao menos foi o que pareceu) o português daqui.

Eu ia exactamente dizer que falta a Galiza nos território lusófonos.
A Galiza até faz parte da CPLP como observador (não pode fazer parte como membro porque não é um país)

Em minha opinião, simplificar apenas por simplificar não vale a pena.

A escrita não é simplesmente um espelho da linguagem falada; deve ser pensada principalmente como a representação gráfica oficial dessa linguagem e como cultura, o seja, cabe à ela ser bela, explícita e manter uma certa carga histórica também.

Não digo que seja intocável e qualquer reforma deva ser descartada, mas sim que o argumento de "simplificar" por si só não serve como base para tais modificações.

A simplificação não foi a única razão do Acordo, como é lógico....
Mas concerteza deves achar que a palavra você fica muito melhor assim escrita que "vostras mercetes".... :)

Cumprimentos

Só não sou 100% a favor do acordo porque acho que é pouco radical. Eu preferia uma versão inicial, há cerca de vinte anos, em que, por exemplo, muitos acentos eram abolidos. Além disso, esta actual versão tem algumas alterações que não fazem sentido (por exemplo: concordo que "anti-semita" passe a "antissemita", mas não entendo porque é que "microondas" há-de passar a "micro-ondas"). Contudo, acho que a entrada em vigor só peca por estar atrasada.
Quanto ao impacto financeiro, acho que é uma falsa questão. Ninguém vai mandar livros para a reciclagem ou alterar letreiros só por causa de umas consoantes mudas e um ou outro hífen. Certamente já muita gente reparou nuns avisos nas paredes (em Portugal) anteriores a outras reformas ortográficas, escritos assim: "Prohibido affixar anuncios n'esta propriedade". Nem os proprietários gastaram dinheiro a alterar os avisos, nem os leitores podem alegar que não entendem o que está escrito.
O mesmo se passará com a nova reforma. Eu não vou comprar outro dicionário, ou outro livro de culinária, só por causa de uns cês ou pês a mais ou a menos.

Pelo que percebi, o hífen é suprimido quando a segunda palavra começa com um "r" ou "s", dobrando essa consoante para unir as palavras, enquanto que nos outros casos como microondas é que passa a haver um hífen a ligá-las. Mas realmente este acordo peca por mexer muito pouco na ortografia....

Cumprimentos

http://public.eksperimental.net/br.wiki/

Não sei se vale a pena ou se este é o melhor sítio para responder ao anónimo de http://public.eksperimental.net/br.wiki/. Mas como pode haver mais quem vá ler as suas opiniões gostaria de comentar uma coisa. Na secção "Como Ajudar" o anónimo (ou a anónima) escreve:
"Não é preciso muito para ajudar neste [sic] causa. Sempre que passares pela Wikipedia [sic, sem o devido acento] e vires um artigo que esteja escrito em português do Brasil, corrige-o!"
Ora bem, o anónimo talvez ainda não tenha verificado as regras e o modo de funcionamento da Wikipédia (a qual é lusófona e não portuguesa, nem brasileira, nem moçambicana).
As alterações podem ser efectuadas por qualquer um. Os brasileiros também podem "corrigir" as palavras que encontrem em português europeu! As alterações contínuas contrárias à política editorial da Wikipédia lusófona podem levar ao bloqueio do "editor".
Mesmo que isso não aconteça ou seja contornado (nomeadamente por edições através de diversas ligações), pode-se gerar uma "guerra de alterações": um altera o que outro alterou e assim sucessivamente. Vencerá (?) o grupo mais teimoso ou o que disponha de mais "munições", que neste caso é o número de utilizadores/editores. Por isso, se o Brasil não está já em vantagem neste momento, será apenas uma questão de tempo para vir a estar.
Já agora, limitando-me ao primeiro exemplo que o anónimo dá (fato/facto), se procurarmos essa palavra na Wikipédia lusófona teremos uma página de desambiguação com o seguinte texto e respectivas hiperligações:
Fato (português brasileiro ou facto (português europeu) pode se referir a:
Realidade
Verdade
Acontecimento
Ocorrência
Ou ainda, fato no português europeu significa:
Indumentária: (calças e casaco/terno)

Portanto, qual é o problema? Onde é que a nossa língua e identidade [são] deturpadas?

Não percebo qual é o grande problema em escrever-mos diferente dos outros países de Língua Portuguesa? Estas alterações impostas com o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa só vão tirar clareza, objectividade (quero dizer objetividade) e riqueza à nossa Língua já para não falar em cultura, património e identidade.
Ainda não percebi muito bem as novas regras mas parece que vão assim existir muito mais homónimas (quero dizer omónimas).
Depois como é que distinguimos palavras com significados tão diferentes como:
pacto e pato
acto e apto e ato
acta e apta e ata
facto e fato
hora e ora
cacto e capto e cato
copta e cota
?

Existe uma coisa que se chama raiz da palavra e família de palavras. A grafia de cada palavra tem razões culturais e históricas (quero dizer istóricas) profundas que não podem ser alteradas com um simples protocolo.
Não é por acaso que "acção" tem a letra 'c', os ingleses também escrevem "action". O mesmo se aplica para "fact", "pact", "cact", "humid", "baptism", "humor", "optimum".
Com o pretexto de nos aproximar-mos dos países que têm línguas de origem portuguesa afastamo-nos nós das nossas próprias origens.
Isto observo eu que não tenho qualquer formação especial em Línguas, o que dirão os nossos professores de Português??

Posso estar enganado mas "pacto" irá contibuar a escrever-se com "c" já que ele não é mudo. Só deixarão de se escrever as letras que serão mudas e mesmo assim, parece ser a única regra que acabará por ser aplicada de maneira diferente no Brasil e Portugal.
Compreendo essa da raíz da palavra, mas a escrita evolui a reboque da língua falada e há muitos exemplos:
Vostras mercetes > voces
Pharmácia > farmácia
No entanto ninguém pensa em voltar a trás. Este acordo muda muito pouco e na verdade tirando alguns "h" e mais uns "c" e "p" mudos, já vem tarde...
Parece-me que a palavra "istória" não existe, nem "história" deixará de existir, quanto muito seria "estória".

Cumprimentos

Sabino escreveu:
"Não percebo qual é o grande problema em escrever-mos [sic] diferente dos outros países de Língua Portuguesa?"
Devolvo a pergunta:
Não percebo qual é o grande problema em escrevermos igual aos outros países de língua portuguesa.

"Ainda não percebi muito bem as novas regras mas parece que vão assim existir muito mais homónimas".
Pelo menos o Sabino confessa que ainda não percebeu as regras. O que eventualmente vão existir é mais palavras homógrafas. Tais palavras sempre existiram, em todas as línguas.
"Depois como é que distinguimos palavras com significados tão diferentes"? Exactamente como actualmente, como sempre: pelo contexto, pois as palavras não são usadas isoladamente.
Eu ato o saco antes de o pôr no lixo.
Eu gostei mais do segunto ato da peça.
Não me peça para substituir outra peça do motor.
Como é que distinguimos "peça" nos três casos? Este exemplo já existe, sem as "novas regras".

"Existe uma coisa que se chama raiz da palavra e família de palavras."
Sim, etimologia. E existe outra coisa chamada evolução (não necessáriamente boa ou desejável, mas é um facto que existe).
Por isso é que nós (em Portugal) escrevemos "produto" e não "producto", nem (ainda menos) o original latino "productu". Pela mesma razão os brasileiros escrevem "ação" e não "acção" e nem eles nem nós escrevemos o histórico e original "actione".
Já agora, a propósito dos exemplos ingleses, eles também evoluiram na escrita e, pegando no último exemplo, escrevem "action" e não "actione". Escrevem "pig" e não o histórico "pigge". Etc, etc.

"A grafia de cada palavra tem razões culturais e históricas"
"(...) afastamo-nos nós das nossas próprias origens."

É verdade, é a tal evolução, seja boa ou má. Mas será que o Sabino deseja voltar a escrever "pharmacia", "castello", "effectivo"?
Os próprios italianos, os mais próximos, pelo menos geograficamente, da língua histórica (latim) que deu origem ao português e ao italiano, não escrevem "homine" nem sequer "huomo", mas sim "uomo" (homem). Não escrevem "actione", nem "accione", nem "aczione", mas sim "azione". Por que raio é que nós havemos de continuar escrevendo "acção" se dizemos "ação"? Só porque em latim era "actione"?

A grafia (...) não pode ser alterada com um simples protocolo."
Pode. Quer gostemos, quer não; quer seja bom, quer seja mau. A grande reforma ortográfica em Portugal em 1911 foi ordenada por portaria. Um outro decreto estabeleceu nova ortografia em 1945. Em 1971 (já eu andava na escola) um acordo entre Portugal e Brasil suprimiu alguns acentos gráficos (por exemplo "òptimamente" passou a "optimamente"). Portanto, decretos, acordos, protocolos, etc, têm imposto alterações à grafia (graphia). Contudo, eu creio que as principais alterações são fruto do uso, da evolução da língua, seja ela considerada boa ou má.

Com os melhores cumprimentos (ou meliore complemente, para ficar mais próximo da origem histórica :-)
Francisco

Francisco, seu comentário é digno de doutorado em línguas, parabéns.

nao concordo com este acordo orotgrafico seja imposto...se fosse pela evolução da lingua, era diferente...imposto desta maneira, por lobbies, não...os portugueses quando foram para o brasil, levaram a nossa lingua,eles é que foram adaptando com a mistura de varias linguas com o ingles e o frances...acho que nosso governo esqueceu-se que a lingua deriva de varias linguas...como o grego, latim e arabe...nos estamos quase a fazer o mesmo, misturando ingles com o portugues...não sera melhor adaptar palavras para o portugues senão ninguem se entende...como serão feitas as traduções dos livros de inglês para português?nos livros as palavras serão todas traduzidas ou so em parte?

Eu sou completamente a favor deste acordo ortográfico, até acho que já vem é tarde e peca por não ir mais longe...por exemplo se escreve anónimo e anônimo porque nao simplifar ao colocar uma trema no "o" acentuado...assim sabia-se que era acentuado e de cada lado do atlântico lia-se como dantes.

Ora vejamos... "Ato" vem do verbo "atar" e "fato" é um objecto, roupa...

Ex.:
PT-PT:
Eu vou atar a corda ao ramo da árvore
Eu vou vestir um fato de macaco

PT-BR:
Eles foram apanhados no ato(acto).
De fato (para vestir ou (de faCto)) é bem verdade

Agora..

Acho errado.. em algumas palavras a mudança... e estes foram apenas 2 exemplos do porque..

e depois do acordo é fuder ou foder?

Será que depois da queda das consoantes mudas os brasileiros nos vão perceber melhor?
Qual é a birra com as consoantes mudas. Os franceses tem-nas com fartura, e há diferenças na lingua dos paises francofonos.
Temos de perder a nossa identidade? Não vejo o acordo como uma evolução da lingua, na maioria dos casos parece-me uma perda de identidade.
Desculpem-me se estou a ser agressiva demais, mas é o que penso.

@Mirtota
"Será que depois da queda das consoantes mudas os brasileiros nos vão perceber melhor? "
Vão continuar a perceberem-nos como agora, a língua não muda.

"parece-me uma perda de identidade."
Vê o comentário do Francisco neste post acerca da perda de identidade, está muito claro e conciso.

Agressivo? Não? Todas as mudanças criam situações destas, mas não leves tanto a peito, afinal de contas é só algumas palavras escritas que mudam...

Cumprimentos

Creio k smp ouveram evoluções na lingua portuguesa, e creio k exas evolucoes foram bastante mais compreendidas, pela maneira como foram implementadas. Este acordo na minha opiniao n e benefico aos portugueses, pk afinal kem vive no país denominado Portugal e kem vai vai ter k alterar em mt a sua escrita. Como ja referido em comentarios anteriores... o arguemnto deste acordo facilitar as traducoes, etc, em parte e errada!!!
Visto k o acordo basicamente modifica ortografia, tda a construcao d frases fika igual...
ou seja, continuamos a ver "te amo" em vez de "amo-te".

Axim concluo dizendo k o acordo é dispensãvel aos PORTUGUESES, população comum!!!!!

Correção: Atualmente, no Português do Brasil não há acento circunflexo no "lêr", "crêr", ou seja, são "ler" e "crer"... Apenas em "lêem", "vêem", "crêem", porém, com a nova regra, este acento foi eliminado desses tipos de palavras. :D